Carta para minha mãe.

mãe

Minha mãe é uma das pessoas mais generosas que conheço. Muito do amor que tenho para doar aos que me estão próximos, eu aprendi com o exemplo dela, que nunca mediu esforços para ajudar quem quer que fosse. Me lembro um dia, quando eu era bem pequena, pedi a ela um pacote de batatas nas Lojas Americanas. Ela comprou e saímos da loja, na época no centro de Goiânia, onde ficavam alguns moradores de rua por perto. Logo na saída uma senhora pediu dinheiro à minha mãe e eu, criança e vendo aquela senhora com aparência faminta, imediatamente dei a ela o meu pacote de batatas, sendo apoiada pela minha mãe. A mulher ficou com raiva, pois acho que queria dinheiro, e jogou o pacote no chão. Eu fiquei triste com a cena, mas em momento nenhum minha mãe me repreendeu pela atitude, pelo contrário, continuou incentivando que eu fizesse sempre mais por aqueles que precisassem.

Durante toda a minha vida vi a doação e a inocência estampadas em suas atitudes. Muitas vezes questionei, julguei, achava que ela não deveria se doar tanto, até o dia que percebi que tudo o que ela fazia, por mim e por qualquer um, era por amor. Porque a minha mãe tem o maior coração do mundo! Sempre me apoiou nas minhas escolhas, por mais malucas que elas parecessem, pois pra ela o mais importante sempre foi a minha felicidade. E mais do que amor e apoio, ela me deu a vida. A oportunidade de estar aqui hoje e agradecer pela existência, pelos aprendizados, pelos tombos e vitórias e pela alegria de nascer na família em que nasci.

Obrigada, mãe, por existir e por ser sempre esse exemplo de dedicação e amor desmedidos. Sei que tudo o que você faz é de coração e você sempre dá o seu melhor, mesmo que às vezes o nosso melhor, não é o que os outros esperam. Continue sempre sendo esse poço de generosidade, e não se esqueça: devemos apenas fazer o bem, mesmo que aparentemente não sejamos recompensados. O que importa, verdadeiramente, é a nossa intenção. A vida se encarga do resto.

E de presente, a oração de São Francisco de Assis:

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.

Te amo!

Freely

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Querido você,

Diga a todo aquele peso que ele acabou. O negro deixou de ser pesado, o branco tomou conta e transformou em leve tudo aquilo que te cercava. Os dias têm outros gostos, gostosos como doce de leite. Descompromissados como o poliamor. Porque o verdadeiro amor é assim, livre e leve, pronto para ir e vir na hora que lhe convém, como um passarinho que só precisa de um ninho para chamar de seu. Voar e voltar, se deixar levar.

Obrigada pelo sorriso sincero, pelo abraço apertado, pelo cuidado desmedido, pelo desejo de estar perto, pela liberdade que preciso. Obrigada por ser quem és e por fazer tudo tão perfeito na sua melhor imperfeição.

Que seja leve enquanto dure e que seja eterno enquanto amor.

Beijo,

Mr. Tambourine Man

Ele tinha os olhos azuis e um sorriso lindo. Me lembro como se fosse hoje, naquela sala apertada de um apartamento qualquer, quando ele perguntou se eu tinha um isqueiro. Nunca fumei e o fato dele ser italiano e eu brasileira, foi a desculpa perfeita para começarmos a falar. Ele era lindo. Barba, cabelos jogados, nariz grande. Italiano. O tênis surrado, o jeito moleque. Me hipnotizou no primeiro olhar.

Com ele, os melhores jantares, as melhores risadas, o melhor tiramissù e carbonara, as melhores festas e músicas, bebedeiras e danças. Até o fatídico dia em que descobri, num jantar entre amigos, que eu não era a única, muito menos a primeira. Sim, ele tinha uma namorada na Itália e uns tantos casos na Espanha. Nem o pior dia de inverno foi capaz de me permitir ficar ali naquela sala. Imediatamente peguei meu casaco e o abandonei com um olhar triste, que ele entendeu sem necessidade de palavras adicionais. 15 minutos de vento gelado na cara e passos apressados, uma caneca de chá e uma noite bem dormida e tudo estava curado. No dia seguinte o telefone. Ele. Como se nada tivesse acontecido, a voz compassada, como se pedisse para não ser abandonado. Acho que aquele foi o momento que entendi (e senti) pela primeira vez o que é compaixão e amor, sem apegos. Passamos a tarde juntos, dessa vez como bons amigos, comprando presentes de Natal para a namorada e para a família dele, que ele veria em alguns dias na Itália. Algumas amigas me chamaram de otária, mas nenhuma delas entendia o quanto nos gostávamos verdadeiramente. Nos tornamos quase irmãos.

Durante muito tempo eu busquei sentir por alguém o que um dia senti por ele. E de fato até consegui chegar em sentimentos semelhantes, mas nunca igual (até porque cada pessoa é uma história, uma relação). Não que eu tenha amado ele mais do que qualquer outro. Amor não se quantifica. A questão é que com ele tudo sempre foi muito diferente e as palavras nunca foram muito necessárias. A despedida foi dura quando ele teve que voltar pro país dele e por um momento a gente até pensou que nunca mais fosse se ver, até o ano passado, quando nos encontramos de novo, na cidade dele. Ele me apresentou a sua esposa, aquela namorada do passado. Linda, gentil e doce. E eu senti uma enorme felicidade de vê-los felizes, de senti-lo tão completo. Passamos o fim de semana juntos, eu e ele, pela Toscana. Nada de romance. Apenas boas risadas e bons vinhos. 5 anos de atualizações e lembranças.

O que faz uma pessoa ser tão importante na nossa vida? O tempo de permanência? A intensidade dos sentimentos? A vontade de estar perto? Não sei explicar porque coisas assim acontecem. Tenho uma coleção de pessoas especiais que já cruzaram o meu caminho. Ele foi uma delas. E hoje eu adoraria estar com ele para dar um daqueles abraços cheios de amor e trocar aquele sorriso que só a gente sabe trocar, porque agora ele tem a família completa que ele sempre sonhou: sua filha nasceu. E tudo o que eu desejo é que eles sejam muito felizes.

Pausa poética sem rimas

Gosto do silêncio e das multidões. Gosto da solidão e dos barulhos internos. Respiração. Batimentos cardíacos. O sangue correndo pelas veias. Olhar o teto, pensar em nada. Me cobrir com o edredom até a cabeça e me encolher na cama num sábado nublado de manhã. Ler sem fim. Comer até não poder mais. Me deliciar num sorriso. Abraçar e sentir. Amar. Olhares me conquistam. Dentes brancos me conquistam. Narizes me encantam. Sapatos dizem muito. O mundo flutua nos meus sonhos. Distantes, divagantes, divergentes. Se eu pudesse escolher ser alguém, escolheria ser eu mesma, com toda a minha lucidez e complexidade. A vida me deu lentes mágicas e eu enxergo mais colorido com elas. 

Descobertas e desapegos.

A medida que íamos subindo, as casas iam se distanciando e a sensação era de que logo menos chegaríamos ao cume da montanha. Pegamos uma estradinha estreita, que nos levava ao Centro de Dharma e ao Templo, onde eu ficaria hospedada nos próximos dias de viagem. Já passava do meio dia e eu ainda não havia comido nada. A fome apertava e fui informada pelo senhor que me buscou na estação de trem, que o local mais próximo dali para comprar comida ficava a 40 minutos de caminhada. Além disso tinha a questão do horário, nada abriria antes das 4 da tarde. Eu estava verdadeiramente faminta.

Chegamos ao local. O homem me ajudou com a minha pequena mala, me mostrou por onde eu deveria seguir à pé até chegar à recepção do Centro.

– Olha, o carro só sobe até aqui. Esse restante você vai à pé. É só ir na recepção e avisar da sua chegada. Que os seus dias sejam auspiciosos!

Agradeci, ainda meio tímida, peguei a mala e fui em direção à porta que ele me indicou. Enquanto subia a rampa, passei por algumas estátuas de Budha, todos sorrindo, com um olhar sereno. Era um lindo caminho, com uma plaquinha que dizia: Via Shambhala, que depois descobri o significado – em  sânscrito, quer dizer: “um lugar de paz, felicidade e tranqüilidade”.

Fui recebida por uma senhora séria, que me explicou como funcionava o local, as refeições e onde eu ficaria. Ela me levou até o meu quarto, um quarto misto, com várias camas no sótão do Centro. Para chegar até ali, eu deveria passar pelos outros dormitórios onde viviam algumas pessoas, entre monges e voluntários. Após subir alguns lances de escada, finalmente estava num recinto cheio de camas espalhadas, com um pequeno banheiro para compartilhar ao fundo.

A cama que escolhi como minha ficava ao lado de uma janela no teto. Dali, subindo numa cadeira, eu conseguia ver a linda vista do horizonte, o Lago Magiore ao fundo, lá embaixo, e toda a natureza que circundava o local. Como não sabia se tinham mais hóspedes comigo, escolhi um lugar estratégico, perto da parede, assim tinha a sensação de estar sozinha, ou pelo menos mais isolada, naquele sótão imenso.

Deixei a mala embaixo da cama, troquei o tênis por uma sandália e desci em busca de comida.

– Por favor, estou morrendo de fome. Meu trem atrasou, não tive tempo de almoçar. Onde posso comer?

– Olha, por aqui vai ser complicado. Não tem nada aberto agora e nem por perto. Posso te oferecer pão com geléia que sobrou do café da manhã. Tudo bem?

A partir daquele momento e nos próximos 5 dias, todas as minhas refeições diárias seriam feitas no Centro. Café da manhã, almoço e jantar. Só comeria aquilo que me fosse oferecido, sem luxo, sem expectativas. Para quem havia ido à Itália com o desejo de comer ‘cornetto al cioccolato’ todos os dias, era um bom exercício de desapego.

Dos encontros que a vida traz.

Em Florença peguei o trem que me levaria até o meu próximo destino. Seriam 4 horas de viagem, com uma baldeação em Milão. A multidão na estação principal de Florença, Santa Maria Novella, era agoniante. Gente de todos os tipos, todos os rostos e idiomas. Eu estava já tão imersa no meu mundo interior, que o excesso de barulho me incomodava. Por alguns momentos pensei que não seria capaz de me readaptar ao cotidiano paulistano, mas não queria muito pensar sobre isso e tudo o que essa volta me traria. Meu foco estava apenas em conseguir sacar dinheiro e pegar o trem correto.

O trem para Milão era um desses trens de alta velocidade, que cortava o interior italiano rasgando. Tudo rapidamente ia ficando para trás. Continuei no meu processo de tentar silenciar a mente, um constante exercício em busca de escutar a voz do meu coração. As pessoas falavam ao redor, executivos com seus lap tops e celulares, o vagão não estava tão cheio e eu não consegui dormir.

Me sentia um pequeno ponto no mundo. Um ser completamente alheio àquela realidade. Minha única companheira era uma pequena mala de 7kg, com uns poucos pares de roupas – muitas delas já sujas – e um livro de um rabino brasileiro. O que uma brasileira, que acabara de sair de Assisi, lendo um livro sobre Abraão, e com um terço árabe nas mãos, iria fazer num centro budista perdido no meio das montanhas italianas? Nem eu mesma sabia. A única certeza que tinha naquele momento era que eu precisava continuar a tal busca que eu havia iniciado.

Após quase meia hora de atraso o trem parou na estação de Verbania. Uma pessoa do centro de Dharma iria me buscar e estaria me esperando na plataforma, como combinado. Eu só sabia que ele era meio gordinho, tinha barba e um cabelo grisalho grande. Não foi difícil reconhecê-lo em meio aos poucos gatos pingados que ali desembarcaram.

Entrei no carro, ainda assustada com tudo aquilo que era tão novo pra mim. A vista era linda, do horizonte via o Lago Magiore e as montanhas, que fomos subindo numa estradinha que mais parecia a Rio-Santos de tantos zigue-zagues. Não saber para onde eu estava indo me dava um misto de ansiedade e aflição. O que será que eu encontraria? Como seriam os meus dias seguintes ali? A única referência que tinha do lugar era que ali viviam os Lamas Gangchen Rinpoche e Lama Michel Rinpoche, mas até então eu havia sido informada que naquela ocasião eles não estariam ali.

–       Olha, você é uma garota de sorte. O Lama Gangchen chegou ontem aqui.

–       Ué, mas me falaram que ele não estaria aqui nesses dias…

–       Pois é, não estaria mesmo, mas acabou voltando para o final da construção do novo Gompa.

–       Uau! Quer dizer que vou conhecê-lo?

–       Não só ele, como também o Lama Michel, que chega amanhã.

–       Mas ele não estava no Brasil?

–       Sim, está. Mas também vai voltar antes, por causa do Gompa.

Mal sabia eu, que no alto daquela montanha, a minha jornada estava apenas começando.

“Wherever you go, go with all your heart.”

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Ciao Lucia, come stai?

Imagino que quando vc estiver lendo esse email, eu já estarei bem
longe daqui. Provavelmente em silêncio e sem contato nenhum com o
mundo exterior. Daqui a pouquinho parto para mais uma aventura. 4
horas de trem até o desconhecido e dessa vez não tem frio na barriga,
acho que já aprendi a lição de que quando a vida leva, tudo é mais
gostoso.

A viagem esta, de fato, sendo incrível. Deixar tudo acontecer ao

acaso, sem nenhum plano, está dando um gosto muito especial a essa

experiência. Parece que a vida esta me contando que ela pode sim
funcionar sem tantos planos, deixando o destino atuar. E,
nessa toada, muitos lugares lindos foram descobertos, permiti que
várias pessoas especiais cruzassem o meu caminho e percebi que Deus
cuida, mesmo quando a gente acha que está sozinho e desamparado.
Mágico!

Eu merecia mesmo viver tudo isso, ter esse tempo e essa experiência. É
tanta coisa, que é melhor eu nem começar a falar, senão vc vai dizer
que eu falo demais!! hahah

Obrigada por ter sido uma luzinha que apereceu no meu caminho. Desde
aqui vejo o simples com outros olhos e posso perceber a minha essência
tal e qual ela é, sem ruidos. Obrigada!

Não sei como serão esses dias no Templo. Provavelmente farei um voto
de silêncio e não terei acesso a celular e nem internet, por isso devo
sumir por uns dias. Tenha certeza de que estarei bem e vc estará
comigo, nos meus melhores pensamentos de paz, amor, fé e harmonia.

Deixe guardado o meu lugarzinho no seu coração, que o seu, aqui dentro
do meu peito, ninguem rouba mais.

Semana que vem estou de volta, sem tristezas, com um olhar cheio de
luz e muitas histórias pra contar. 🙂

Te desejo uma semana linda e iluminada!

Arrivederci!

Beijo,

Ju