Publicado por: Juliana França em: maio 10, 2011
Todos os dias eu acordo e digo pra mim mesma: “Calma, tudo vai dar certo.” Abrir os olhos não é tarefa fácil, apesar de que os meus sonhos nunca são os mais confortáveis de se ter. Muitas vezes eu tenho a sensação de que estou vivendo num hiato, contando os dias para esse capítulo acabar.
Eu fui vendida, por acaso, ao Diabo*. E sinto que tive que cortar as minhas mãos para ser recebida, mesmo que o meu pranto gritasse que não. Foram anos de aprisionamento, até que um dia eu me vi liberta. E uma vez livre, não sabia muito bem o que fazer. Aos poucos, reconhecendo a minha essência, percebi que as mãos podiam, novamente, nascer. Mas elas não nascem de uma hora pra outra, demanda um tempo, paciência.
É tão bom saber que os meus textos são meus e que agora eu posso terminar os períodos quando eu bem entender. Usar vírgula, ponto e exclamação quando eu quiser. Ser livre tem seu preço, e o grande preço que eu pago, agora, é o medo. Porque, afinal de contas, existe a lembrança da (auto)punição.
Eu imagino como deve se sentir um presidiário quando sai da cadeia, talvez até depressivo ele fique. Como se adaptar à nova rotina? É por isso que mulher de bêbado prefere apanhar ao fugir de casa? O novo às vezes assusta. E traz consigo um sentimento de incapacidade. Será que eu sou capaz de enfrentar isso? E é sim difícil acreditar que existem pessoas que acreditam em você.
Liberdade. Poder ir e vir, falar o que bem entender, escrever sem medo. Assusta. Assusta porque é novo, mas o novo, com o tempo, vira rotina e você se acostuma. Se aperfeiçoa. Não dá pra ser a melhor sempre, mas dá pra evoluir. Dá pra aprender, com tempo e paciência. E dá pra criar novas mãos, mais fortes e determinadas, longe de tudo o que te oprime.
*Inspirado no conto A Donzela Sem Mãos, do livro “As Mulheres que Correm com os Lobos – Mitos e Arquétipos da Mulher Selvagem”, de Clarissa Pinkola Estés.