for the price of a cup of tea

Saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou.

Publicado por: Juliana França em: maio 4, 2011

Sábado de manhã, acordo com aquela dor de cabeça típica de ressaca e exageros da noite anterior. Olho pro lado e vejo uma mulher. Cabelos lisos, longos, franja. Pele branca, boca quase vermelha de tão corada, tatuagem no braço. Ela dormia um sono profundo, parecia bem bonita, apesar de estar com a minha camiseta toda amassada. Levantei sem fazer barulho, fui até a cozinha pegar um copo de água e procurar uma aspirina. A casa estava uma zona, parecia que um furacão tinha passado por ali. A bolsa dela em cima da máquina de lavar roupa, minha calça no chão do quartinho de empregada, nossos sapatos e roupas pela sala e cozinha. “É, a noite deve ter sido boa, pena que não me lembro de nada.” Pensei comigo mesmo. “E o nome dela, qual será?” Eu sequer conseguia me lembrar como a conheci e muito menos como conseguimos chegar em casa. A chave do carro estava em cima da mesa da TV, eu tinha vindo dirigindo.

Tomo minha aspirina, com os olhos ainda meio entreabertos por causa da claridade. Tinha que colocar uma persiana com urgência na sala. Precisava de um cigarro, maldito vício. Óculos escuros, janela e meu maço de cigarros. Belo café da manhã para um sábado ensolarado. Como era mesmo o nome dela? Eu simplesmente não conseguia me lembrar e novamente ia passar aquela vergonha típica dos dias seguintes.  Ela ia acordar, eu ia trocar 3 palavras e inventar uma desculpa falando que tinha que sair. Essa nunca falhava. A pior coisa é passar o fim de semana com uma mulher carente, que você mal conhece e acaba acolhendo por falta de coragem de expulsá-la de casa. Já fiz muito isso na vida, não faço mais.

Depois de 2 cigarros entro no quarto, ela continuava na mesma posição. Fui tomar uma ducha. Quando estava no meio do banho, escutei um barulho. A porta se abriu e ela entrou. Se olhou no espelho, esfregou um pouco de pasta dental nos dentes com o dedo, tirou a camiseta e entrou na ducha comigo.

- Bom dia. – Ela disse sem nenhum sorriso ou demonstração de afeto.

- Bom dia. – Eu respondi, sem saber muito o que dizer para continuar a conversa. Confesso que me senti um pouco invadido. Já não bastasse estar na minha casa, ela ainda fazia questão de atrapalhar o meu banho.

- Muito boa a sua cama. Gostei.

- É aquele colchão que se adapta ao corpo, sabe?

- Sei. Dizem que são caríssimos.

- É, de fato custou uma nota.

- Você não ta com fome? Eu to morrendo de vontade de comer frango assado, daqueles de padaria.

Não pude acreditar. Frango assado era simplesmente a minha comida favorita. Dei um abraço nela, assim, de repente, que ela nem conseguiu retribuir. Saí do banho, joguei uma toalha pra ela e disse:

- Se veste aí. Sei de um lugar ótimo aqui perto.

Essa, sem dúvida, foi uma das melhores tardes dos últimos tempos. Comemos frango assado como se o mundo fosse acabar no dia seguinte, rimos como duas crianças e fumamos como dois adultos mega viciados em nicotina. Ela era divertida e interessante, tinha um sorriso um pouco misterioso e já depois de horas de papo ela me perguntou:

- Mas escuta aqui, qual é mesmo o seu nome?

- Você jura que não sabe?

- Não sei o seu tanto quanto você não sabe o meu. Pode me chamar de Alice.

- Então me chama de Marcelo.

Há tempos não me apaixonava por ninguém. Sempre fiz o tipo durão, daqueles que não se entrega e me vi babando, revirando meus vinis para mostrar pra ela aquela música fantástica, enquanto ela dançava desajeitada, tropeçando no tapete. Parecia que, finalmente, o cupido tinha cumprido bem a sua tarefa. Frango assado, cigarros, aspirinas e chocolate. Até senti vontade de amar de novo, depois de tanto tempo.

- Me dá outro cigarro?

- Putz, acho que acabou. Olha ali na gaveta, perto da minha carteira.

- É, parece que acabou mesmo. Mas a padaria ainda tá aberta, né?

- Ah, sim. Quer ir lá comprar? Eu vou com você.

- Não precisa, é aqui ao lado. Fica aí e escolhe a próxima música pra eu adivinhar qual é.

E com um sorriso meigo no rosto, pegou a bolsa e saiu. Eu prontamente escolhi uma música que tinha certeza que ela não ia saber qual era, mas iria adorar. Fui até a cozinha, abri um vinho, enchi duas taças, deixei a porta semi-aberta e fiquei sentado no sofá com o controle do som na mão, só esperando escutar o barulho do elevador pra dar o play. Queria que ela entrasse em casa com o som da música.

Esperei 10 minutos, e nada. Imaginei que ela tivesse resolvido comprar mais algumas coisas. Talvez algo pra comer… Esperei meia hora, duas, três. Esperei a noite toda pelo momento em que eu iria abraçá-la e convidá-la pra uma dança, ao som da minha música preferida. Mas ela nunca mais voltou.

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    • Eremita Urbano: Realmente, a insatisfação é um padrão.... que vem da comparação com padrões impostos. Tornam o estilo de vida publicado em mídias como um dogm
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