Publicado por: Juliana França em: junho 23, 2010
Depois de muito pensar e analisar a conta bancária, decidi: era hora de terminar. Como sou péssima em dizer não, resolvi fugir, afinal, além de evitar o diálogo e possível combate, também economizaria uma boa grana, pois aquela sessão, mesmo que última, custaria dinheiro. Preparei meu discurso, vesti meu casaco e fui. Chegando lá ele me recebeu com um abraço afetuoso, senti sua barriga, que parecia ainda maior. Fazia somente um mês que eu estava fugindo e parecia que nesse tempo ele tinha comido um porco inteiro. Não sei porquê, mas psicólogos e professores de educação física gordos, nunca me passaram muita confiança, tipo médico que fuma, sabe? Dei aquele sorriso sem graça, de quem tem algo a dizer, olhei pela janela, era mais um daqueles dias cinzas e frios, tossi e comecei. Claro que a primeira escapatória foi falar do problema financeiro… Disse que exagerei no cartão de crédito nas férias e por isso tinha me afastado. Preferia não ir a não pagar. A verdade era outra e se ele fosse um bom terapeuta teria reparado. Eu estava cansada de ser hipnotizada sempre que me surgia um problema. Eu sou espertinha, eu sei, ele sabia, e nas viagens mentais que ele me propunha, eu tinha a sensação de estar me enganando, sempre. Contei o que tinha se passado nas últimas semanas, com um ar intelectual, como quem tivesse lido o artigo mais recente de arquétipos de Jung e disse que na verdade o meu interesse tinha mudado: o que eu queria mesmo era seguir uma linha mais analítica, buscar o meu centro, que há tempos eu tinha perdido e não conseguira encontrar nas regressões de vida passada e heranças familiares. Ele, prontamente e sem rodeios, me disse que esse era um grande sinal de evolução e que eu estava pronta para seguir um novo caminho. Ele quis dizer e disse, em alto e bom tom, que a partir daquele momento eu era o seu grande case de sucesso, que ele me daria alta, me redimindo de toda e qualquer culpa que eu pudesse sentir de ter abandonado a terapia. De uma certa forma saí dali feliz, afinal, não é qualquer um que recebe alta da terapia e eu tinha conseguido essa façanha. Dias depois descobri que ele fazia isso com todos que tentavam abandoná-lo. Era seu mecanismo de defesa, porque ninguém, nem mesmo os terapeutas, são perfeitos.